Três Lagoas Três Lagoas
Críticas à terceirização ganham força após fala polêmica do presidente da Câmara Municipal de Três Lagoas
Durante sessão legislativa, o parlamentar afirmou que, caso fosse realizado concurso público para o cargo de merendeira, “a maioria das que estão lá não passariam”
28/01/2026 18h08 Atualizada há 3 meses
Por: Redação Fonte: Assessoria
Foto Divulgação

O discurso do presidente da Câmara Municipal, vereador Tonhão, em defesa da terceirização da merenda escolar, provocou indignação entre merendeiras e servidores da educação. Durante sessão legislativa, o parlamentar afirmou que, caso fosse realizado concurso público para o cargo de merendeira, “a maioria das que estão lá não passariam”, sugerindo que a terceirização elevaria o nível da categoria.

A fala foi recebida como ofensiva, discriminatória e desrespeitosa pelas profissionais, que atuam há anos na rede municipal, muitas delas com experiência prática, cursos de capacitação e histórico de dedicação à alimentação escolar. Para as merendeiras, o discurso expõe preconceito social e desvalorização da classe trabalhadora, além de reforçar estigmas contra profissionais com menor escolaridade formal.

A revolta se espalhou rapidamente entre as trabalhadoras, que relatam sentimento de humilhação pública. Algumas afirmam que o presidente da Câmara ultrapassou os limites do debate político ao atacar a dignidade das servidoras, e já discutem a possibilidade de ingressar com ação judicial contra o vereador, sob alegação de discurso discriminatório e ofensivo.

O episódio ganhou contornos ainda mais polêmicos devido ao histórico pessoal do parlamentar. Tonhão é formado em Direito, mas, segundo relatos públicos, ainda não conseguiu aprovação no Exame da OAB. Para as merendeiras e parte da população, a fala do vereador revela incoerência e hipocrisia, ao questionar a capacidade de profissionais humildes enquanto ele próprio não obteve êxito em uma avaliação técnica de sua área.

“É fácil diminuir quem ganha pouco e trabalha em condições difíceis. Difícil é respeitar quem coloca comida no prato das crianças todos os dias”, comentou uma servidora, sob anonimato.

A terceirização da merenda escolar tem sido alvo de críticas em todo o país, especialmente por abrir brechas para precarização das condições de trabalho, redução de salários, perda de direitos e enfraquecimento do vínculo com o serviço público. Em Três Lagoas, as merendeiras já protestaram contra a terceirização, denunciando redução de benefícios, jornada mais rígida e perda de garantias trabalhistas.

Especialistas em administração pública alertam que a terceirização, quando mal fiscalizada, pode gerar economia aparente para o município, mas custa caro em qualidade do serviço e dignidade dos trabalhadores.

Juristas consultados apontam que falas públicas que humilham ou discriminam categorias profissionais podem configurar dano moral coletivo, especialmente quando partem de autoridades públicas, que têm o dever constitucional de respeito à dignidade humana e à valorização do trabalho.

Caso a ação judicial seja formalizada, o caso pode se tornar um marco local sobre limites do discurso político e responsabilidade de agentes públicos.

O episódio evidencia um problema recorrente na política municipal: o distanciamento entre representantes e trabalhadores que sustentam os serviços públicos. As merendeiras afirmam que não querem privilégios, mas respeito, reconhecimento e condições dignas de trabalho.

Enquanto o debate sobre terceirização continua, a fala do presidente da Câmara deixa uma marca difícil de apagar: a sensação de que, para alguns políticos, quem está na base da pirâmide social continua sendo tratado como descartável.