Em Três Lagoas, as enchentes históricas da Avenida Jary Mercante e regiões adjacentes não são novidade, não é surpresa e muito menos fatalidade. É um problema antigo, conhecido, judicializado e, ainda assim, nunca resolvido. A cada chuva mais forte, a água invade ruas e casas, destrói bens materiais, leva móveis, eletrodomésticos, documentos e, junto, anos de esforço de famílias inteiras.
Não se trata apenas de ruas alagadas. A água entra nas casas. Em algumas, bate à porta; em outras, invade salas, cozinhas, banheiros e quartos. O prejuízo não é só material, ele é psicológico, é social, é a destruição de sonhos construídos com muito sacrifício de trabalhadores e trabalhadoras.
O que torna essa situação ainda mais revoltante é que dinheiro não faltou. Pelo contrário: o que não faltou foram empréstimos, anúncios e milhões prometidos para drenagem urbana.
Desde 2012, a Prefeitura de Três Lagoas responde a uma ação civil pública que resultou em condenação para solucionar definitivamente as enchentes naquela região e indenizar as famílias atingidas.
Mais de uma década depois, o problema persiste. E pior: nos próprios autos do processo há laudo técnico em que a própria Prefeitura reconhece que, mesmo após gastar milhões do erário público, as obras realizadas não são suficientes para resolver o problema.
Isso, por si só, já seria grave. Mas o histórico recente escancara algo ainda mais preocupante.
Foi amplamente divulgado o Projeto de Macrodrenagem e Recuperação Ambiental, viabilizado por financiamento internacional junto ao Banco CAF – Corporação Andina de Fomento, no valor de 50 milhões de dólares. Hoje, esse mesmo valor convertido ultrapassa com facilidade 250 milhões de reais. E mesmo com cifras desse tamanho, o problema não só continuou como se espalhou.
Em 26 de abril de 2024, o então prefeito Ângelo Guerreiro anunciou mais 120 milhões de reais em empréstimos, novamente com a promessa de resolver a drenagem urbana. Agora, em 2025, o atual prefeito Cassiano Maia (PP) anuncia a necessidade de novos financiamentos, também para obras urbanas e drenagem.
Segundo informações divulgadas no final de 2025 nas redes sociais do atual Presidente da Câmara Municipal, Tonhão (PSDB), a nova operação prevê um financiamento de 30,4 milhões de dólares, também junto ao Banco CAF, além de uma contrapartida municipal de 7,6 milhões. Convertidos em reais, são mais de centenas de milhões de reais que a população vai pagar ao longo de muitos anos e será herança de futuros prefeitos e prefeitas que vierem.
Somadas essas cifras, estamos falando de 500 a 600 milhões de reais destinados à infraestrutura urbana e drenagem nos últimos anos, um valor que se aproxima de metade da arrecadação anual do município comprometida com empréstimos. E a pergunta que ecoa nas ruas alagadas é simples e direta: onde isso tudo foi parar?
A explicação técnica do problema da Jary Mercante é conhecida e ignorada. O novo sistema de drenagem, construído sob a pavimentação recente, utiliza tubulações de grande vazão, mas foi conectado à uma rede de drenagem antiga, estreita e deficiente. É como ligar um cano de 100 polegadas a um de 3/4: a vazão estrangula, a água retorna e a enchente reaparece na superfície. As lagoas de contenção (vendidas como solução barata) não suportam o volume, extravasam rapidamente e empurram a água para os bairros mais baixos.
O resultado é perverso: regiões que antes não alagavam passaram a alagar, como trechos da Rua Getúlio Garcia Marques, na baixada do Jardim Primaveril. As obras não resolveram, o poder político que governa…
Por Lucas Bocato
Advogado e Mestre em Geografia (UFMS/CPTL)