A política tem suas contradições, mas algumas situações chamam a atenção pela falta de coerência entre discurso e prática. Em Mato Grosso do Sul, uma delas envolve o ex-prefeito de Três Lagoas, Angelo Guerreiro.
Atualmente, Guerreiro ocupa cargo ligado ao gabinete do deputado federal Dagoberto Nogueira. Sua esposa, Leide, também recebe remuneração pública, desta vez vinculada ao gabinete da deputada estadual Mara Caseiro. Ambos os parlamentares são pré-candidatos a deputado federal e, naturalmente, esperariam contar com a lealdade política daqueles que integram suas equipes.
Afinal, é razoável imaginar que quem recebe salário de um gabinete político compartilhe minimamente do projeto político daquele parlamentar. Não se trata de submissão ou obrigação eleitoral, mas de coerência.
O que causa estranheza, entretanto, são os movimentos políticos recentes do ex-prefeito. Em vez de fortalecer as pré-candidaturas daqueles que lhe abriram espaço político e institucional, Guerreiro tem sido apontado como articulador e apoiador de outros nomes que disputarão exatamente o mesmo espaço eleitoral de Dagoberto e Mara Caseiro.
A situação levanta uma pergunta inevitável: é correto permanecer ligado politicamente e financeiramente a determinados grupos enquanto trabalha, nos bastidores, pelo fortalecimento de candidaturas concorrentes?
Na iniciativa privada, uma postura semelhante dificilmente seria tolerada. Imagine um funcionário de uma empresa promovendo ativamente a concorrência. No mínimo, seria acusado de deslealdade.
Na política, embora não exista impedimento legal, existe o julgamento da opinião pública. E a população tem o direito de questionar até que ponto essa movimentação representa independência política ou simples conveniência.
Mais curioso ainda é que Angelo Guerreiro construiu sua trajetória defendendo valores como gratidão, parceria e compromisso político. Justamente por isso, seus atuais movimentos geram desconforto entre antigos aliados e observadores da política estadual.
Se Dagoberto e Mara Caseiro são suficientemente importantes para abrigar politicamente Guerreiro e sua família em seus gabinetes, não deveriam ser importantes também na hora de receber apoio eleitoral?
A política permite alianças, divergências e reposicionamentos. O que ela não costuma perdoar é a incoerência.